quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Fernando Barbosa Lima "Conselhos para o neto Pedro e pra muita gente"


Quando o Boni criou o livro que recebeu o título de "50/50", Fernando Barbosa Lima foi um dos primeiros nomes lembrados para contar a sua história. Na última sexta-feira 05/09 Fernando nos deixou. Transcrevo na íntegra o depoimento de Fernando Barbosa Lima para o livro do Boni. Nesse texto ele se dirige ao Pedro, seu neto, em setembro de 2000, quando a televisão brasileira comemorava 50 anos.
"Meu caro Pedro"
Agora que você está terminando o seu curso de comunicação e pensa em fazer TV é bom eu contar duas ou três histórias. Criei mais de 100 programas de televisão.
Alguns desses programas que eu criei foram famosos. Programas como o "Preto no branco", "Jornal de vanguarda", "Abertura", "Sem censura", "Os 10 mais", "Canal livre", "Cara a cara", "Conexão internacional", "Rede Brasil", "Os editores", "Advogado do diabo", "Baleia verde", "Persona", "Os brasileiros", "Primeiro time" e muitos outros. Nos meus encontros nas universidades e escolas de Comunicação sempre me perguntam como eu comecei na TV. Comecei tendo uma idéia.
Eu tinha 22 anos e estava na casa de meus pais em Botafogo. Na TV Rio passava um programa chamado "Cruzeiro musical". Patrocinado pela empresa de aviação Cruzeiro do Sul, o programa mostrava uma orquestra que tocava uma seqüência de boleros. Foi aí que, mesmo sem nunca ter entrado numa estação de TV, eu tive a idéia: por que uma empresa nacional de aviação, voando pelo Brasil, não faria uma série de programas mostrando o Brasil aos brasileiros?
Cada programa mostraria um Estado. Por exemplo: a Bahia vista através dos textos de Jorge Amado, das músicas de Caymmi, dos desenhos do Carybé e das lendas do candomblé?
Levei a idéia para o diretor de comunicação da Cruzeiro, o brigadeiro Rocha, que eu não conhecia, e ganhei o programa. E agora? Com o aval do patrocinador fui até a TV Rio e conversei com os seus dois diretores, Cerqueira Leite e Péricles do Amaral. Na mesma hora eles apoiaram a idéia. Era um programa diferente. Como até então eu nunca tinha dirigido um programa de televisão, pedi o apoio de um bom profissional da TV Rio. Foi aí que eu encontrei o Carlos Alberto Lofler, um poeta que conhecia o olhar de uma câmera. Um profissional da mais alta excelência, uma pessoa excepcional.
O programa foi um sucesso. Mostramos quase todos os estados do Brasil. Repetimos a série na TV Record. O próximo passo, já sendo considerado um homem de televisão, foi o programa "Preto no branco". Mais uma vez eu e o Carlos Alberto revolucionamos a linguagem dos programas de TV.
"Olhe bem este rosto. Deputado Tenório Cavalcanti, o senhor vive para matar ou mata para viver?"
A incrível voz de trovão do Sargentelli estourava em todos os televisores do Rio. No dia seguinte o "Preto no branco" seria o grande assunto nos botequins, nas esquinas e nos escritórios. O "Preto no branco" era uma nova proposta na TV. O cenário, ocupando todo o fundo, era um céu azul com nuvens. Carlos Alberto teve a idéia de pintar, pela primeira vez, o chão do estúdio. Sobre um fundo cinza, linhas de fuga pretas que se abriam em diagonal dando uma idéia de profundidade.
No centro do cenário, um banquinho de bar onde o entrevistado se apoiava, de pé. As perguntas eram feitas em "off", mudando completamente o estilo das entrevistas da época, quando o entrevistador ficava ao lado do entrevistado. A única regra era não entrar na vida particular de nenhum entrevistado. O programa era ao vivo, sem nenhum corte de edição. Não existia nenhuma possibilidade de censura ou manipulação.
Foi no "Preto no branco" que nasceu o super big-close da nossa TV. Como a tela dos nossos televisores era muito pequena, o super close era uma forma de estabelecer uma intimidade visual entre o entrevistado e o público. Cada detalhe era registrado: a mão tremendo, o suor, o olhar assustado.
A minha opção profissional sempre foi pelo jornalismo. É através dele que podemos acrescentar novos conhecimentos e novas possibilidades para o nosso povo. Sem educação não existe futuro. Um caminha ao lado do outro. Daí a minha preocupação de sempre buscar caminhos novos sem fugir do jornalismo.
Logo no início da nossa televisão os telejornais eram apresentados por locutores de rádio que liam as notícias. No fundo, uma cortina. Na mesa, uma cartela com o nome do patrocinador. Na verdade, eram jornais de rádio com uma câmera de TV dentro do estúdio.
Quando criei o "Jornal de vanguarda" a mudança foi radical. Fui buscar nas redações dos jornais e revistas jornalistas que sabiam dar e comentar as notícias. Gente como João Saldanha, Villas Boas Correa, Tarcísio Hollanda, Stanislaw Ponte Preta, Maneco Muller, Appe, Gilda Muller, Ricardo Amaral, Borjalo, Newton Carlos, Reynaldo Jardim, Darwin Brandão e Ibrahim Sued. Do outro lado das câmeras, Carlos Alberto Vizeu, José Ramos Tinhorão e Ana Arruda. Fazendo a ligação entre os apresentadores estavam as vozes de Luiz Jatobá, Cid Moreira, Fernando Garcia, Célio Moreira, Jorge Sampaio e Moacir Lopes. O melhor do melhor. Era um grande show de notícias, um jornal altamente informativo e criativo, que tinha a coragem de ter opinião. Foi uma revolução na TV. Foi premiado no Brasil e internacionalmente.
Para manter o seu espírito de independência ele passou por várias emissoras: Excelsior, Tupi, Globo, Continental e acabou na TV Rio quando foi decretado o Ato Institucional n° 5 e a censura total da ditadura militar. Não existia mais clima para o "Jornal de vanguarda". Toda a equipe, em conjunto, decretou o seu fim.
Só voltei para a televisão quando a ditadura começou a falar em anistia, abertura política, volta à democracia. Novamente junto com Carlos Alberto Vizeu, da Tele Tape, e os jornalistas Mario de Moraes e Luiz Carlos de Oliveira colocamos o "Abertura" no ar.
O "Abertura" era uma grande revista em movimento. Cada apresentador editava o seu quadro. Era apresentado por Villas Boas Correa, Ziraldo, Sérgio Cabral, Glauber Rocha, João Saldanha, Newton Carlos, Antonio Callado, Célia Portela, Vivi Nabuco, Fausto Wolff, Mariza Raja Gabaglia, Tarcísio Hollanda e Roberto D'Avila.
Foi a primeira vez, ainda no final da ditadura, que se voltou a falar em política no Brasil. Petrônio Portela cumpriu a sua palavra. Eu me lembro de uma reportagem do Roberto D'Avila, o melhor entrevistador da nossa televisão, quando ele conversava em Paris, com filhos de exilados. Crianças que não conheciam o Brasil. Foi um momento de pura emoção.
No jornalismo encontrei sempre a televisão na qual eu acreditava. Mesmo quando eu fui diretor da Excelsior, da TVE, da Bandeirantes e da Manchete o jornalismo estava sempre em primeiro lugar.
Agora mesmo, com o "Primeiro time", estou mudando o velho estilo do talk-show. Hoje, se o entrevistado não é excelente, ninguém agüenta mais ficar uma hora, 15 minutos, ou até menos, diante dessa pessoa. O controle remoto é uma realidade. No "Primeiro time" junto 10 pessoas interessantes e conhecidas, completamente diferentes entre si, mas que se interligam o tempo todo. Se você não gosta do "A", certamente vai gostar do "B". É um programa de idéias e debates, informativo e divertido.
Nesse pequeno e resumido relato, você, meu caro Pedro, vai perceber que o mais importante de tudo é ter sempre novas idéias e, principalmente, paixão pela televisão, o mais forte veículo de comunicação de todos os tempos. Procure ver sempre, do outro lado dessa tela luminosa, o rosto do povo brasileiro.

P.S. Transcrito da coluna de Carlos Alberto Viseu, pra quem eu prestei serviço na sua produtora "Tele Tape".

Um abraço a todos a quem me visita, Edigarde Rodrigues

2 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns Edigarde !!
Uma bela iniciativa,é muito bom compartilhar os nossos sentimentos,sonhos, ideologias. Quando os corações batem no mesmo ritmo consequentemente,os objetivos caminham para a mesma direção.
Um forte abraço
Maria Tereza Pregeli

" Aprendemos a voar como pássaros e a nadar como peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos"
(Martin Luther King)

luciairton disse...

VALEU GRANDE AMIGO, UM GRANDE ABRAÇO E UM DIA LA CEU ESTAREMOS JUNTO,,,,,,